segunda-feira, 13 de julho de 2020

Paulo e Pedro, dois apóstolos profetas da Igreja - Por frei Gilvander (Vídeo)

Paulo e Pedro, dois apóstolos profetas da Igreja - Por frei Gilvander - Na luta por Direitos (Vídeo) - 11/7/2020.



 Paulo e Pedro, dois grandes pilares e bússolas do cristianismo. Os dois se identificaram totalmente com o projeto do evangelho de Jesus Cristo, seguindo o mestre radicalmente, orientados pela Boa Notícia que o Galileu anunciava aos pobres. Pedro e Paulo terminaram a missão martirizados, segundo a tradição da Igreja.



*Texto e filmagem de frei Gilvander Moreira, da CPT, das CEBs, do CEBI, do SAB e da assessoria de Movimentos Populares. Edição de Nádia Oliveira, colaboradora da CPT-MG. 

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terça-feira, 7 de julho de 2020

Luta pela terra é também luta espiritual e profética. Por Frei Gilvander


Luta pela terra é também luta espiritual e profética
Por Gilvander Moreira[1]

43ª Romaria da terra do Rio Grande do Sul, em Mormaço, Diocese de Cruz Alta, dia 25/02/2020. Divulgação / www.diocesecruzalta.com.br
Assim como há ciências, há também teologias que sistematizam a luta pelo bem comum a partir de uma fé emancipatória – fé no Deus da vida e no Evangelho de Jesus Cristo. Na realidade conflituosa e contraditória da sociedade capitalista em que vivemos, marcada por uma das maiores concentrações fundiárias do mundo e por um povo religioso, torna-se necessário analisar a luta pela terra também sob o ponto de vista da teologia bíblica. Em inúmeras passagens  bíblicas, as profetisas e os profetas bradam, em nome do Deus da vida: “Queremos a justiça e o direito”! Isso não se mendiga, conquista-se na luta coletiva e organizada.
Há na Bíblia muitos textos de denúncia da grilagem de terras como, por exemplo: "Não removerás os marcos de teu próximo do lugar em que os puseram teus pais para delimitar a herança familiar, no país que o Senhor teu Deus te dará em posse” (Deuteronômio 19,14); "Maldito aquele que remover os marcos da herança do seu próximo” (Deuteronômio 27,17); "Os maus removem os marcos dos terrenos” (Jó 24,2). Na Bíblia a terra aparece como sendo herança de Deus, algo que deve passar de pai para filha/filho, não pode ser vendida, pois não é mercadoria.
Para os povos indígenas “a terra é sagrada, nela se baseia a organização tribal. Entre os tapirapé, os mortos são enterrados dentro das casas em que viveram e onde continuam vivendo os seus parentes” (MARTINS, 1983, p. 117). No livro Os Camponeses e a Política no Brasil: as lutas sociais no campo e seu lugar no processo político, José de Souza Martins recorda: “A um tapirapé a ideia de sepultar o morto fora da casa em que viveu causa o mesmo terror que causaria a nós a ideia de enterrar os nossos mortos dentro de casa. Seria sinal de abandono do morto por seus parentes, motivo para que viesse assombrá-los. Por isso, a troca ou venda da terra não faria nenhum sentido para um tapirapé, porque significaria, entre outras coisas, o abandono de seus parentes mortos e a quebra dos eixos de sustentação da sua sociedade” (MARTINS, 1983, p. 118).
Na luta pela terra estão envolvidas não apenas questões políticas e econômicas, mas também questões religiosas. Exemplo disso foi que o Estado, por meio da polícia militar, assassinou o monge José Maria em 22 de outubro de 1912. Após sua morte, a guerra do Contestado cresceu muito e se alongou até 1916.
As mulheres parteiras do Egito – a Bíblia registra os nomes de duas: Séfora e Fuá (Êxodo 1,8-22) -, diante de uma “medida provisória” de um faraó (semelhante a um Decreto-Lei) que mandava matar no momento do nascimento as crianças do sexo masculino, organizaram-se e fizeram greve e desobediência civil, política e religiosa. “Não vamos respeitar uma lei autoritária do império dos faraós. O Deus da vida quer respeito à dignidade da pessoa humana e não concorda com a matança de crianças e com nenhuma opressão”, devem ter dito em seus corações as Mulheres do ‘sistema de saúde’ sob o imperialismo egípcio. Diz a Bíblia: “Deus estava com as parteiras. O povo se tornou numeroso e muito poderoso” (Êxodo 1,20), isto é, crescia em quantidade e em qualidade.
Em meados do século IX antes da era cristã, época do profeta Elias, intransigente defensor dos camponeses, a monarquia reinante na Palestina estava reforçando a latifundiarização do país. As pequenas propriedades estavam sendo expropriadas pelos grandes proprietários, entre os quais os detentores do poder político monárquico. Nesse contexto, a Bíblia narra um episódio exemplar. O rei Acab e sua esposa Jezabel cometeram crime de usurpação investindo para açambarcar a pequena propriedade de um posseiro chamado Nabot, nome que significa, em hebraico, aquele que (se) doa. Nabot rejeitou trair os valores dos camponeses da época: “Javé me livre de ceder-te a herança dos meus pais!” (I Reis 21,3). O rei Acab se irritou com a resistência de Nabot. Jezabel, rainha adepta do ídolo Baal – deus da chuva e da fertilidade -, manipulou a religião e a justiça para roubar a terra do posseiro. Caluniou, criminalizou e demonizou Nabot que, com o beneplácito do sistema judiciário da época, foi condenado à pena de morte por apedrejamento. Porém, como a expropriação dos camponeses e o sangue dos mártires suscitam a atuação veemente de profetas, ao ouvir que o rei Acab estava invadindo a pequena gleba do posseiro Nabot, após tê-lo matado, apareceu o profeta Elias e, em alto e bom som, profetizou: “Você matou, e ainda por cima está roubando? Por isso, assim diz Javé (Deus solidário e libertador): No mesmo lugar em que os cães lamberam o sangue de Nabot, lamberão também o seu. Farei cair sobre você a desgraça” (I Reis 21,19.21). O profeta Elias foi veemente na condenação da ação do chefe da monarquia (I Reis 21,17-26). A compreensão da terra como pertencente a Deus permeia e perpassa toda a Bíblia. Por exemplo, no livro de Levítico se afirma: “Assim disse Javé, o Deus da Vida: A terra não será vendida, pois que a terra me pertence” (Levítico 25,23).
O profeta Miqueias nasceu no interior de Judá, sul da Palestina, e atuou entre os anos 725 e 696 antes da era cristã. Miqueias foi provavelmente um camponês empobrecido, marginalizado e vítima de processo de expropriação pela falta de apoio à agricultura camponesa. Miqueias denunciou a cobiça e as injustiças sociais que os dirigentes políticos e religiosos estavam cometendo sobre o campesinato da época. Ele condena a riqueza como fruto da exploração. Profeta dos sem terra, Miqueias defendeu a partilha e a socialização da terra. Vindo do campo, ao chegar à capital Jerusalém, ele se defronta com os enriquecidos – políticos profissionais, especuladores e religiosos funcionários do sagrado -, denuncia a exploração e a expropriação dos camponeses do sul da Palestina. Miqueias, de forma intrépida e contundente, profetiza: “Ai daqueles que, deitados em seus leitos de marfim, ficam planejando a injustiça e tramando o mal! É só o dia amanhecer, já o executam, porque têm o poder em suas mãos. Cobiçam campos, e os roubam. Tomam as casas do povo, oprimem o homem, sua família e sua comunidade; roubam a herança deles, a perspectiva de futuro” (Miqueias 2,1-2).
Para Miqueias, ‘a herança deles’ é a terra, que é roubada. Com o dedo em riste, o profeta acusa os exploradores: “São vocês os inimigos do meu povo: de quem está sem o manto, vocês exigem a veste” (Miqueias 2,8). “Vocês expulsam da felicidade de seus lares as mulheres do meu povo” (Miqueias, 2,9a). “Vocês tiram dos filhos a liberdade que eu lhes tinha dado para sempre” (Miqueias 2,9b). Ele ameaça e condena Israel (o reino do norte da Palestina) e seus chefes exploradores como “aqueles que comeram a carne do povo, arrancaram-lhe a pele...” (Miqueias 3,1-3) e aponta como culpados os militares, os falsos profetas, os chefes, os comandantes, os juízes, os sacerdotes; enfim, a classe dominante da época. Denuncia ainda o profeta Miqueias: “Essa gente tem mãos habilidosas para praticar o mal: o príncipe exige, o juiz se deixa comprar, o grande mostra a sua ambição. E assim distorcem tudo. O melhor deles é como espinheiro, o mais correto deles parece uma cerca de espinhos! O dia anunciado pela sentinela, o dia do castigo chegou: agora é a ruína deles” (Miqueias 7,3-4).
Apesar da opressão e das injustiças contra os camponeses, o profeta Miqueias (e/ou suas/seus discípulas/discípulos), não perde a esperança e anuncia também a utopia que está sendo produzida nas entranhas da luta coletiva pelo bem comum: “Em um campo em ruínas, na Samaria, uma plantação de vinhas – lavouras – será feita.” (Miqueias 1,6). “De suas espadas vão fazer enxadas, e de suas lanças farão foices” (Miqueias, 4,3).[2] Como herdeiro da fina flor libertária da caminhada dos povos da Bíblia, passando pela sabedoria do povo – “Os pobres possuirão a terra” (Salmo 37,11) -, Jesus Cristo ecoa no discurso da montanha a utopia da terra partilhada e socializada com quem precisa: “Felizes os humildes, porque herdarão a terra” (Mateus 5,4). Portanto, a luta pela terra não é apenas uma questão política, mas também uma questão de fé, espiritual e profética. Feliz quem dela participa[3].

Referências
MARTINS, José de Souza. Os Camponeses e a Política no Brasil: as lutas sociais no campo e seu lugar no processo político. 2ª edição. Petrópolis: Vozes, 1983.
MOREIRA, Gilvander Luís. Profeta Miqueias, um camponês que clama por Justiça (Mq 1-3). p. 37-42. In: AMARAL DA COSTA, Julieta (Org.). Em tempos difíceis, o profeta Miqueias aponta saídas: uma leitura do livro de Miqueias feita pelo CEBI-MG. São Leopoldo/RS: CEBI, 2016.

07/7/2020.

Obs.: Os vídeos nos links, abaixo, ilustram o assunto tratado acima.
1 - Acampamento Dênis Gonçalves, do MST, em Goianá, MG - luta pela terra. Frei Gilvander - 26/8/2010.

2 - Acampamento Eloy Ferreira, do MST, Engenheiro Navarro/MG: luta pela terra. Frei Gilvander. 02/9/2010

3 - MST na luta pela terra no sul de MG - Grito dos Excluídos - Frei Gilvander/luta por direitos/07/9/10

4 - Palavra Ética: Luta pela terra e por moradia em Pirapora e em Santa Luzia, MG. E Leonardo Boff.

5 - 160 famílias na luta pela terra em Pirapora, MG, há 20 anos. Despejar é injusto/violência. 17/2/2020

6 - CEBs na luta pela terra com o MTC em Córrego Danta, MG: Fé e luta por direitos. Vídeo 3 - 16/8/2019




[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH, em Belo Horizonte, MG. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br      –       www.twitter.com/gilvanderluis        –     Facebook: Gilvander Moreira III
[2] Cf. também MOREIRA, Gilvander Luís. Profeta Miqueias, um camponês que clama por Justiça (Mq 1-3). p. 37-42. In: AMARAL DA COSTA, Julieta (Org.). Em tempos difíceis, o profeta Miqueias aponta saídas: uma leitura do livro de Miqueias feita pelo CEBI-MG. São Leopoldo/RS: CEBI, 2016.

[3] Gratidão à Carmem Imaculada de Brito, doutora em Sociologia Política pela UENF, que fez a revisão deste texto.


sexta-feira, 3 de julho de 2020

Estudo - Em três décadas Amazônia perde o equivalente aos estados de SC, PR, SP, RJ e ES

Estudo - Em três décadas Amazônia perde o equivalente aos estados de SC, PR, SP, RJ e ES - JN - 02-7-2020.


 Estudo: em 3 décadas, Amazônia perdeu área equivalente aos estados de SC, PR, SP, RJ e ES. O Mapbiomas pesquisou a área conhecida como Pan-Amazônia, região da floresta que alcança nove países: Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Suriname Guiana e Guiana Francesa. Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) mostram que a destruição da Amazônia está aumentando. Em relação ao número de queimadas, este foi o pior mês de junho em 13 anos. - Reportagem do Jornal Nacional dia 02/7/2020. 
* Vídeo original: G1 – Jornal Nacional – Notícia – 02/7/2020.
 Divulgação: Frei Gilvander, da CPT, das CEBs, do CEBI, do SAB e da assessoria de Movimentos Populares. 
Edição de Nádia Oliveira, colaboradora da CPT-MG. 
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O devastação da Amazônia só está crescendo, o que é gravíssimo, pois aproxima a humanidade de um Apocalipse.


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quinta-feira, 2 de julho de 2020

Direitos Humanos, Ecologia Política e Injustiça Ambiental. Por Frei Gilvander, na UEMG

Direitos Humanos, Ecologia Política e Injustiça Ambiental. Por Frei Gilvander, na UEMG - 29/6/2020.


Dia 29/6/2020, frei Gilvander Luís Moreira participou de Live de um Curso da UEMG, ao lado das professoras Andrea Zhouri (UFMG0 e Natália Tavares Rios (UFRJ). A íntegra da Live está no youtube no canal: kaipora UEMG . Eis, aqui, a palestra ministrada por frei Gilvander sobre o tema: Direitos Humanos, Ecologia Política e Injustiça Ambiental.
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quarta-feira, 1 de julho de 2020

Miguel Lanzellotti Baldez: celebração da esperança, homenagem e tributo (1930 a 10/6/2020)


Miguel Lanzellotti Baldez: celebração da esperança, homenagem e tributo (1930 a 10/6/2020) - 22/6/2020.


Um pouco sobre quem foi o que fez Miguel Lanzellotti Baldez, no link, abaixo.


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Padre Júlio Lancellotti sendo entrevistado por Paulo Wescley, do Miolodepod no instagram

Padre Júlio Lancellotti sendo entrevistado por Paulo Wescley, do Miolodepod no instagram

Padre Júlio Lancellotti sendo entrevistado por Paulo Wescley, do Miolodepod no instagram, dia 30/6/2020.

https://www.youtube.com/watch?v=FmQeag9E7bY

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Crédito: Reprodução / Facebook - Padre Júlio Lancellotti abriu abaixo-assinado para proteger moradores de rua durante a pandemia

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terça-feira, 30 de junho de 2020

Paulo e Pedro, dois apóstolos profetas


Paulo e Pedro, dois apóstolos profetas. Por Gilvander Luís Moreira[1]


Apóstolos Pedro e Paulo, colunas da Igreja. Divulgação / www.vaticannews.va 
29 de junho é dia da festa dos apóstolos Paulo e Pedro, dois grandes pilares e bússolas do cristianismo e também tempo propício para refletir sobre o legado espiritual-profético que eles nos deixaram. Os dois se identificaram totalmente com o projeto do evangelho de Jesus Cristo, seguindo o mestre radicalmente, orientados pela Boa Notícia que o Galileu anunciava aos pobres. Pedro e Paulo terminaram a missão martirizados, segundo a tradição da Igreja. No movimento de Jesus após a ressurreição, estavam acontecendo tensões que poderiam levar a separações. Uns diziam: “Eu sou de Paulo”; ou “eu sou de Apolo”;  ou “eu sou de Pedro”; ou ainda “Eu sou de Cristo” (I Coríntios 1,12). Na Bíblia, no livro de Atos dos Apóstolos, é possível descobrirmos uma paulinização de Pedro e uma petrinização de Paulo. Ou seja, para o evangelista Lucas, autor também do livro Atos dos Apóstolos, não é bom que aconteça divisão e nem cisma entre as várias tendências de evangelização. A unidade verdadeira pressupõe a diversidade e não a anula. Para Lucas, Pedro e Paulo são apóstolos dos judeus e dos gentios.
Segundo Atos dos Apóstolos, foi Pedro quem fez o primeiro discurso após o primeiro Pentecostes (At 2,1-13), um discurso profético e corajoso (Cf. At 2,14-36), no qual Pedro denuncia de forma altaneira: “Vocês, autoridades, mataram Jesus, mas Deus o ressuscitou!” (At 2,23-24). Pedro teve a grandeza de sair de Jerusalém – a Igreja mãe – e ir conviver com comunidades consideradas impuras, heréticas, no meio dos excluídos (Cf. At 9,32-43). A convivência com os pobres se tornou a base do processo de conversão de Pedro, que o habilitou a experimentar o Espírito do Deus da vida atuando no meio dos gentios, tal como acontecia entre os cristãos (Cf. At 10,1-11,18). Memorável também foi a participação do apóstolo Pedro no Concílio de Jerusalém, por volta dos anos 49/50 do primeiro século da era cristã, em que, ao lado de Barnabé e Paulo, lutou pela abolição da lei da circuncisão, que tinha se transformado em um insuportável fardo para os cristãos oriundos do meio dos estrangeiros.
Em At 20,17-38 está um discurso do Apóstolo Paulo aos presbíteros, ou seja, aos “anciãos” que eram os coordenadores das primeiras comunidades cristãs. "Presbíteros" eram apóstolos? Profetas? Mestres? Ou ...? Essas são questões que nos levam a discutir a diversidade de dons nas primeiras comunidades cristãs. Em At 20,28 os presbíteros da comunidade cristã de Éfeso são chamados de “epíscopos”, cuja função pastoral é a de vigiar e conduzir a comunidade. Epíscopo é um título grego que significa “supervisor”; aquele que tem a responsabilidade de acompanhar o desenvolvimento da comunidade para cuidar do seu vínculo com o espírito original e da sua sintonia com os critérios de continuidade. Ainda não há aqui a noção de sucessão apostólica, pois o apóstolo Paulo não os apresenta como os seus sucessores, mas como pessoas encarregadas pelo Espírito Santo de manter as comunidades no bom caminho.
No tempo de Paulo não existia a diferença entre clero e leigos. Havia, sim, uma variedade, não orgânica de carismas, como apóstolos, profetas e mestres (At 13,1), evangelistas (Filipe: At 21,8), profetisas (as filhas de Filipe: At 21,9) etc. Os presbíteros são simplesmente os animadores de comunidades; nunca são chamados de "sacerdotes" no Segundo Testamento. Nas cartas paulinas constatamos que no seio das comunidades há uma diversidade de dons que deve ser articulada pelo cimento que é a solidariedade. Isso é ótimo, pois o Espírito não se deixa encurralar e não aceita ser engaiolado; sopra aonde quer, para onde quer, é livre, liberta e tem sede de liberdade. Paulo reitera diversas vezes: "Não percam a liberdade cristã!" (2 Cor 3,17). "Não entristeçam o Espírito Santo!" (Efésios 4,30). O apóstolo Paulo percebeu que existia nas comunidades uma dificuldade de conviver de modo sadio com a diversidade de dons. Paulo pontua bem esta multiplicidade de dons recordando que existe uma ordem de importância. A comunidade cristã não pode cair no subjetivismo e nem no relativismo de "tudo é igual a tudo", ou no "devemos respeitar tudo".
No capítulo doze da I Carta aos Coríntios, Paulo trata da diversidade de dons. Ele pontua que em primeiro lugar estão os apóstolos, e o termo deve ser entendido no seu sentido original e etimológico: apóstolo/a é aquele/a que é enviado/a por Deus, é um/a missionário/a, um porta voz de uma mensagem do Deus solidário e libertador. Na época descrita por Atos dos Apóstolos, época das primeiras igrejas, antes do processo de institucionalização (hierarquização), o termo "apóstolo" não significa um título que dá status, só adquirindo esta conotação mais tarde, depois do processo de hierarquização das igrejas, o que amordaçou a vitalidade do dinamismo profético inicial.
Em segundo lugar estão os profetas. A palavra "profeta" vem do verbo pro-ferir, que significa falar por antecipação. Etimologicamente a palavra "profeta" significa "aquele que profere uma mensagem em nome de Deus". O profeta escuta o Oráculo de Deus. A palavra "oráculo", em hebraico, significa "sussurro, cochicho, de Deus no ouvido do profeta ou da profetisa". Para entender um cochicho, um sussurro, é preciso fazer silêncio, prestar muita atenção, estar em sintonia, ter proximidade, ser amigo etc. Portanto, Deus não falava claramente aos profetas, como nós, muitas vezes pensamos que falava. Do mesmo modo que falava aos profetas e profetisas Deus fala hoje a nós. Deus cochicha (sussurra) em nossos ouvidos a partir da realidade dos empobrecidos e superexplorados. Precisamos colocar nossos ouvidos e nosso coração pertinho do coração dos pisados para que possamos escutar Deus. Mais do que fazer cursos de oratória, precisamos de cursos de escutatória. Para ouvir os clamores mais profundos dos violentados é necessário conviver com eles.
Em terceiro lugar vêm os mestres, aqueles que devem ensinar a verdadeira mensagem de Jesus. Ensinar pelo testemunho e, de preferência, por meio da pedagogia da maiêutica: conversando, dialogando e assim ajudando os outros a parir ideias e práxis libertadoras. Lá no final da escala vem o dom das línguas (cf. I Cor 12,28).
Em I Cor 13,1-13, Paulo faz um elogio do amor para nos mostrar que relações de amor é que devem ser a coluna mestra da vida das comunidades e Igrejas. Paulo nos alerta: "Desejem os dons do Espírito, principalmente a profecia, pois quem profetiza fala às pessoas, é entendido, edifica, exorta e consola a comunidade. Aquele que profetiza é maior do que aquele que fala em línguas. Quem fala em línguas edifica somente a si mesmo, fala só a Deus” (cf. I Cor 14,1-6). Em I Cor 14,19 o apóstolo Paulo afirma: “Numa assembléia, prefiro dizer cinco palavras com a minha inteligência para instruir também os outros, a dizer dez mil palavras em línguas”.
Paulo e seus companheiros fundam e desenvolvem comunidades proféticas a partir da ação do Espírito. Quase todas as vezes que na Bíblia fala que "desceu o Espírito de Deus sobre..." diz também que os atingidos pelo Espírito de Deus começam a profetizar (cf. Nm 11,29; At 19,4-6). A profecia é uma consequência direta da ação do Espírito. Logo, um bom critério para saber se estamos vivendo uma verdadeira experiência no Espírito de Deus é nos perguntar: “Estamos nos tornando mais profetas ou profetizas?” Se a maioria das pessoas que diz falar em línguas fossem também profetas e profetizas, teríamos um maior número de mártires e talvez o Brasil já estaria transfigurado por causa de tanta profecia. Mas como há um exagero de “falar em línguas” e de propostas religiosas intimistas, dualistas, moralistas e fundamentalistas, a profecia cristã está em baixa e, por isso, os fascistas e os exploradores nos mundos da política, da economia e da religião estão reproduzindo uma necropolítica que mata de mil formas.
Enfim, Pedro e Paulo foram apóstolos profetas, não apenas divulgaram o ensinamento de Jesus Cristo, mas testemunharam até o martírio boas notícias aos empobrecidos, que são péssimas notícias para os opressores[2].

30/6/2020.

Obs.: Os vídeos nos links, abaixo, ilustram o assunto tratado acima.
1 - Sr. Luiz Estevão, camponês benzedor. Assentamento Padre Jésus, 46 anos de Festa São Pedro. Vídeo 7

2 - Na Missa de 7o dia de Alvimar da CPT, na igreja de São Pedro/Montes Claros, 25/08/2016

3 - Mártires de Unaí/MG: relato emocionante por Pedro Paulo Martins, SINAIT/RJ, 23/02/2016

4 - Frei Carlos Mesters/ Atos dos Apóstolos 15,22-31: O Primeiro Concílio Ecumênico realizado/ 15/5/2020

5 - Padre Antônio Amorst, 85 anos, profeta de Deus no Vale do Rio Doce, MG. Parte II - 11/9/2019

6 - Tributo ao Padre Ernesto: Um Profeta no meio do Povo - 27/7/2019





[1] Frei e padre carmelita; doutor em Educação pela FAE/UFMG; mestre em Exegese Bíblica; assessor da CPT, CEBI, SAB, CEBs e de Movimentos Populares Socioambientais; e-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com - www.twitter.com/gilvanderluis - facebook: gilvander.moreira
[2] Gratidão à Carmem Imaculada de Brito, doutora em Sociologia Política pela UENF, que fez a revisão deste texto.